Página Inicial Os Escritores Lista de Crônicas + Recente + Antiga



Ninguém mais

Luis Fernando Verissimo

Ninguém mais atravessa o Canal da Mancha a nado ou ateia fogo às vestes. Fiquei pensando nestas duas ausências gritantes (ninguém mais diz “ausência gritante”) dos noticiários e numa possível explicação.

Não faz muito, as pessoas atravessavam o canal da Mancha a nado o tempo todo. Cobriam o corpo com graxa - por causa do frio - e lançavam-se ao canal, que atravessavam em horas. Ou era dias? Às vezes desistiam, e eram retiradas da água pela sua equipe, que as acompanhava em barcos, junto com assistentes e fotógrafos. E juravam que tentariam de novo, pois atravessar o Canal a nado era um supremo desafio à perseverança humana. Era, mesmo, o supremo desafio à perseverança humana da moda. Sem muita recompensa, fora a satisfação pessoal de ter conseguido e a notoriedade de alguns dias, pois ainda não era a época da celebridade esportiva rentável. Atravessava-se o Canal da Mancha a nado apenas porque ele estava lá. E atravessava-se muito.

xx -- xx -- xx

Não houve uma brasileira que atravessou o Canal da Mancha a nado? Tenho uma vaga lembrança da foto de uma brasileira saindo, besuntada e vitoriosa, das águas do Canal, e do meu orgulho com a notícia. Foi antes do Ademar Ferreira da Silva ser campeão olímpico do salto triplo, antes da Maria Ester Bueno no tênis, antes da Copa do Mundo de 1958, antes do Baby Pignatari comer meia Europa, o País não tinha muitos feitos internacionais para comemorar. Se não é imaginação minha, a brasileira que atravessou a Canal da Mancha a nado foi nossa heroína precursora. Mas eu provavelmente a inventei?

xx -- xx -- xx

Talvez tenha acontecido com o Canal da Mancha o que aconteceu com o Monte Everest, que também era uma suprema prova para a perseverança humana e precisava ser conquistado porque estava lá. Depois que o primeiro inglês chegou no seu cume – embora digam que puxado pelo seu guia xerpa, que chegou primeiro - a conquista do Everest banalizou-se e dizem que hoje existem até excursões de fim de semana tipo "duas noites no Himalaia Hilton, uma no pico do Everest, etc." para alpinistas amadores. Crianças devem estar atravessando o Canal da Mancha a nado todos os dias e a gente é que não fica sabendo.

xx -- xx -- xx

Moça tentando se matar ateando fogo às vestes era um final corriqueiro de caso passional, no tempo em que se atravessava muito o Canal da Mancha a nado - e se via disco voador, e jogador de futebol usava rede no cabelo, e os homens faziam "fffff" quando aparecia mulher gostosa em filme.

Não passava dia em que os jornais não trouxessem a notícia de uma mulher desesperada que ateara fogo às vestes ou, menos comum, tomara guaraná com formicida, por uma desilusão amorosa. Sempre a mulher, nunca o homem.

Eu me impressionava com as tragédias quase diárias, claro, mas também ficava intrigado com aquela palavra, "atear", que eu só via naquele contexto, e raramente vi depois que as mulheres abandonaram a prática. As desilusões amorosas continuam. Atear, felizmente, não se usa mais.

xx -- xx -- xx

Por que será? Não é razoável pensar que maneiras de se matar também entrem e saiam de moda, como o ioiô. O fogo nas vestes devia ter um significado - uma mensagem pirorritualística inconsciente - que se perdeu com o tempo. Ou então o uso de material do cotidiano suburbano feminino, a querosene, o fósforo, o formicida, foi ultrapassado pela urbanização, pelos exemplos da TV, até por uma nova atitude da mulher vitimada que, cada vez mais, pode optar por matar o safado em vez de se matar. O país mudou e até o desespero se sofisticou.

xx -- xx -- xx

Ninguém mais atravessa o Canal da Mancha a nado, ninguém mais ateia fogo às vestes, ninguém mais faz reunião dançante com estrogonofe e, não sei se é verdade, mas ouvi até dizerem que ninguém mais usa Vic Vaporub.


Domingo, 30 de maio de 2004.



Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.